Fecha-se a triologia sobre a Noite, que publiquei em ordem inversa a que foi escrita - entre o primeiro e o terceiro poema, foram 7300 noites... A intenção foi passar, a quem lê, as sensações como ficaram em mim, e não como me chegaram, foi permitir uma visão da minha face como eu a vejo no espelho, invertida, e não o olhar direto com que as pessoas olham aos outros. Sou um reflexo de mim, e dos olhares dos outros sobre mim, numa noite qualquer.
Carlos
sexta-feira, 10 de maio de 2013
A NOITE
Há um
homem na noite
mas para
a noite um homem
não é
nada.
Na
noite um homem tem apenas
seus
fantasmas, sua poesia,
sua
pequena morte na madrugada,
seus
olhos velados pelo céu sem luar.
Na
imensidão escura o homem se
embriaga
de mistérios, caminha em
desatino,
errático, tanto lobo
quanto
menino.
Há um
homem na noite,
mas há,
também,
uma
noite neste homem.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
A NOITE II
hoje a noite procura um amor
a noite é fútil como os desejos da
virgem
não sabe, não aprende
a noite se vende a um poema
um teorema, um perfume de jasmim
a noite é bela e esparrama sua beleza
naqueles que sofrem, nos que choram
e assim os faz felizes
com seus carinhos de meretriz.
a noite é dada, dá-se a todos
poucos a tem,
ninguém toca a noite
a noite toca-se em silêncio
goza no escuro todos os prazeres
todos os pudores, todos os amores
que não quis.
a noite etílica, ébria de si
penetra os corpos dos mortos
morreram de amar
ficaram vazios, gelados, inertes
fecharam os olhos para os sonhos
que sonharam em desconsolo,
a noite é mais uma noite apenas
é mais uma hora tardia
uma canção sem poesia,
na noite entrego meu querer
a quem interessar possa
na noite nada possuo
a noite possui a alma
dos que sofrem, dos que choram
a noite se vende num bordel de
terceira classe,
passe, eu lhe peço
mas a noite não passa...
quarta-feira, 8 de maio de 2013
À NOITE
a noite
começa cedo
três, quatro
horas não é mais madrugada
já é a noite
que se inicia
ninguém
pergunta (não há companhia em hora tão única)
se é calor ou
frio, se sinto febre ou medo
de onde vem
este tremor e esta indolência
este peso que
me arrasta, como o horizonte que puxa o sol
mesmo que ele
queira ficar mais um instante
sobre o mar,
sobre o negro, que é também um mar
pairando no
céu onde sabe que o cruzeiro é quem reina.
nesta longa
noite o sol virá e há de partir
as gentes
irão, sonâmbulos da vida, levantarem-se,
comer (os que
podem) o pequeno almoço
sentirem-se
outros em seus automóveis
serem outros
no trabalho obrigatório,
entre morrer
de fome e produzir, exerceram seu direito
de escolha,
sua liberdade de optar pela única opção...
não, não vim
falar do sistema, embora ache que é ele
(sempre é)
quem me corrói, achincalha ao poeta
exige meus
músculos e sangue e neurônios e eu
que me foda
para controlar os hormônios,
atravessar a
claridade da noite intacto, quer dizer,
preservar
minha insanidade até a hora que me venha o lobo,
cheguei em um
bar qualquer
bebi qualquer
bebida
amei uma
mulher,
em todas as
mulheres que amei,
amei uma
única, e ela se chamava mulher
ainda a amo,
assim como amo a poesia
e as estrelas
me dizem coisas que nem os livros falam
os livros
calam, os bichos saem para caçar e serem devorados
em meu quarto
eu sou um bicho, presa de minha própria fera
como meus
pés, meu ventre, minhas entranhas
só não
consigo mastigar a cabeça, ela observa e pensa
a noite está
acabando, mais uma, são três horas,
a noite está
começando, é por isso que não dou bola pra deus
ele não
conseguiu inventar o dia, disse: faça-se a luz
e ela não se
fez, mas o universo parecia ter ficado mais claro
e ele ria-se
satisfeito com sua criação, e na terra as crias
dividiram-se
entre os outros, os lobos e os poetas, e os malditos
que são lobos
e poetas, que amanhecem e jamais dormem
enquanto for
noite, e não há dia meu amor, não há,
porque os
dias são feitos de amor, mas os homens não...
quarta-feira, 24 de abril de 2013
DA
NECESSIDADE DE SE CONFESSAR O AMOR ÀS MUSAS
Gosto de
peregrinar pelo vocábulo, apreender novas expressões, descobrir outros sentidos
para os termos conhecidos, sobrestar frases até que a palavra acurada surja, ou
mostre-se desnecessária, como nos contos de Gogol.
Esse gosto
pelo vocabulário não é só meu, nem só dos filólogos, nem só dos literatos, é de
quem fala, é de quem ouve... principalmente de quem quer ouvir e falar e contar
suas histórias.
Trabalhei em
uma empresa, autarquia publica responsável pelo transporte urbano, em que um
diretor apreciava novos termos, e vivia a repeti-los. Ao ser apresentado à
palavra “informal”, foi amor imediato. E era um tal de almoço informal,
conversas informais, até que em uma reunião para tratar diretrizes de um
projeto de lei de transporte, após vários interlocutores se expressarem, o
mencionado diretor se pronuncia: “não vou opinar sobre as questões técnicas,
mas em minha opinião temos de fazer uma lei informal”!!!!!!!!
Já outras
palavras, ficamos reticentes em adotá-las... neófito... adoro esse termo,
gostaria de ser conhecido como Carlos, o neófito... mas ser principiante a vida
toda? Em alguns casos é até atrativo, como no amor, que quando novo é paixão; na
poesia, em que o espanto é quem cria... porém em geral a denominação de neófito
é pejorativa, como li de um crítico de arte sobre uma exposição: “até mesmo os
neófitos conseguirão entender”. Melhor ser Carlos, o poeta, neófito ou
encanecido, ninguém vai atrás da simbologia do termo.
Quando
falamos de palavras novas, é automático pensar em neologismos... então aqui vai
um: misomusia.
Que palavra
linda, remete à música, poesia, só pode deixar de admirá-la o misoneísta... ou
quem lhe conhece a definição, dada pelo seu criador, o escritor e ensaísta
checo Milan Kundera – aquele de A Insustentável Leveza do Ser, mas também
aquele de Risíveis Amores, ele que acha fundamental o humor:
Misomusia é a
aversão às musas, o desprezo pelas tradições artísticas, é o fazer e não o
criar, são as regras impostas pelo mercado e não pelo estilo, é produção e não
arte.
Na semana
passada visitei Leminski no MON, lá em Curitiba. Parei sob o painel de seu
haikai:
entro e saio
dentro
é só ensaio
é só ensaio
Quando tive a pretensão de escrever haikai fui me aprofundar na forma, conhecer as
regras e as obras, e nessas li esse texto do Paulo. Desisti, jamais me caberá
inspiração suficiente para escrever um haikai com tamanha sensibilidade,
profundidade e precisão. E não vou escrever versos conectados em três linhas e
chamá-los de haikai, somente porque esse estilo virou moda, isso não seria
obra, seria misomusia.
Essa humildade,
que ajuda a manter o foco em trabalhar à exaustão para ter elementos poéticos
prolíficos e ricos, para que quando surja o espanto, ou a musa desnuda, a
poesia se faça, não cabe ao misomuso, ele se afasta da vanguarda, da
retaguarda, ele se posiciona no meio das atenções, longe arte.
No ensaio A
Arte da Novela, Kundera define assim o misomuso: "não ter
sentido para a arte não é grave. Pode-se não ler Proust, não
ouvir Schubert e viver
em paz. Mas o misomuso não vive em paz. Ele se
sente humilhado pela existência
de uma coisa que o ultrapassa,
e a odeia".
Musas, ninfas, sonhos, venham e nos rodeiem e enlacem e
dancem e façam sorrir os apolíneos e o dionisíacos; façam os cantores gritarem,
os atores girarem, os pintores se lambuzarem, os protugueses navegarem, os
poetas nascerem do tamanho de sua poesia. E no primeiro dia, e em todos os dias
da evolução, se diga: faça-se a arte.
Haveria o devenir sempre ser de evolução, o misomuso
deveria estar extinto antes de existir, mas ele está por aí, e faz-se necessário
combatê-lo, não com rifles e granadas, e sim com o suspiro da amada, com a
prosa a rima o paradoxo, seguir Cervantes e Saramago, e Pessoa, ter sempre à
mão um papel branco, porque ouvi de uma musa que seria sempre ela quem iluminaria
esse papel para que eu pudesse escrever, e assim ser poeta.
Musa, musica, magia, poesia... a arte nossa de cada dia,
a filomusia...
quinta-feira, 18 de abril de 2013
VERSOS ÚMIDOS
em versos úmidos
em versos úmidos
sigo o rumo nordeste
meu rei meu menino
destino
em versos úmidos
sigo seu cheiro
fluidos femininos
desatino
versos úmidos
de olhar fragilidades
na hora do gozo
na hora da seca
na hora escura da solidão
versos umedecidos
pelos beijos
pelos vapores termais
pelo orvalho frio da noite fria
versos úmidos
queria agora poder secar-lhes
agradecê-los e dizer:
vão-se embora
mas fiquem meus versos
ela dorme agora
porém logo acorda
sedenta de versos
úmidos versos
de amor e de espera...
meu rei meu menino
destino
em versos úmidos
sigo seu cheiro
fluidos femininos
desatino
versos úmidos
de olhar fragilidades
na hora do gozo
na hora da seca
na hora escura da solidão
versos umedecidos
pelos beijos
pelos vapores termais
pelo orvalho frio da noite fria
versos úmidos
queria agora poder secar-lhes
agradecê-los e dizer:
vão-se embora
mas fiquem meus versos
ela dorme agora
porém logo acorda
sedenta de versos
úmidos versos
de amor e de espera...
quarta-feira, 10 de abril de 2013
A DAMA DE FERRO
“baby,
hoje cê faz treze anos, vejo em seus olhos seus planos”... quando os anos 80
começaram, eu tinha a mesma idade da baby que o Raul cantou... no mesmo disco, antológico, visionário, já se
sabia o que seria aquela década... “ei anos 80, charrete que perdeu o
condutor”... só não sabíamos ainda que Raulzito não chegaria aos anos 90... e
naquele ano, 1980, perderíamos John Lennon (ah, estrela amiga, por que você não
fez a bala parar?)... não só o pop/rock perdeu dois gênios, o mundo perdeu duas
pessoas que pensavam além dos paradigmas do ter e fazer.
Ainda
em 80 o rock perderia seu maior baterista, John Bonham, e com ele o final da
banda que fez a transição entre o rhythm blues e o heavy metal, para muitos a
maior banda de rock de todos os tempos, o Led Zeppelin.
Para
compensar tantas perdas, foi em 1980 que surgiu a Donzela de Ferro, ou Iron
Maiden, que conquistaria o mundo principalmente a partir de seu terceiro disco,
The Number of the Beast, com Bruce Dickinson assumindo os vocais. O nome da
banda foi inspirado em um instrumento medieval de tortura, consistido de um
sarcófago antropomorfo com pregos em seu interior, que, ao fechar-se a porta,
penetravam no corpo da vítima. Registre-se que o Iron Maiden, destarte suas
letras, caveiras e visual agressivo, tinha em seus integrantes pessoas
“caretas”, muito profissionais, motivo inclusive da saída de Paul Di’anno, pois
o vocalista original fazia a linha sexo, drogas, muita droga, com rock’n roll.
Se
no rock britânico havia a Donzela de Ferro, a política estava entregue, desde
79, à Dama de Ferro, alcunha da primeira-ministra Margareth Thatcher. A
inspiração do apelido da premier é o mesmo aparelho de tortura que ficou famoso
em Nuremberg.
Nos
anos 80 houve a amálgama de cria e criador, Inglaterra e Estados Unidos. Aqui
não se pondera quem criou quem, tamanha foi a afinidade entre Thatcher e
Reagan. Com a economia mundial em colapso, após a crise do petróleo, essa
entidade, Reagan/Thatcher optou por confrontar as políticas econômicas keynesianas, implantando o modelo que estava sendo incubado no Chile
sanguinário de Pinochet.
As privatizações em massa, o poder dado ao mercado,
à redução do estado, medidas que em conjunto ficaram conhecidas como
neoliberalismo, pretendiam que cada individuo fosse em si um capitalista, a ser
engolido pelas estruturas capitalistas cada vez maiores. Thatcher promoveu a
ilusão de que a privatização resolve qualquer problema e que a desregulação do
sistema financeiro favorece as economias. Esta desregulação promovida por
Thatcher pode ser apontada como uma das origens da crise mundial iniciada em
2008. "Nove em dez economistas atribuem à desregulação um papel
potencializador da crise que se abateu sobre o mundo”, diz um professor da
Unicamp.
Essa
constatação, por si, já deveria servir para ruir o mito desta senhora, mas a
macroeconomia é uma área hermética, insensível, e dessa forma não de vê, nem se
lê, nem se comenta, que o neoliberalismo foi o responsável, nos anos 80, por milhões de mortes de crianças, jovens,
adultos, idosos, homens, mulheres, brancos, pretos, vermelhos, amarelos, que
tinham em comum o fato de viverem no terceiro mundo e serem pobres. Foram
mortes por fome, pela violência de regimes totalitários, guerras fratricidas, epidemias, e a mais terrível das mortes,
ainda mais temível que a dama de ferro, a morte por falta de esperança.
Aos
87 anos, morreu a senhora Margareth Thatcher, sobreviveu aos anos 80, o mundo
sobrevive a ela, mas àqueles que morreram nesta década são como as boas e
velhas bandas de rock’n roll, jamais voltarão. É em memória desses velhos
companheiros do mundo que hoje na vitrola vou ouvir Led Zeppelin, e Iron
Maiden, e Raul Seixas, e pensar: que pena que ela morreu hoje, e não antes dos
anos 80.
Carlos Moraes
quinta-feira, 4 de abril de 2013
O PERFIL
meu coração romântico pensa coisas (o impulso é o raciocínio
do pensamento) que não concebo cartesianamente. e pensa ele que almas são seres e o sendo são imemoriais, etéreas, e que neste vasto espaço imaterial que habitam se
conflitam, se encontram, se misturam para toda sua eternidade.
outras são paridas da mesma luz, as gêmeas, dispares de
corpos se necessitam como presas de um vício atávico, e se buscam continuamente por jamais estarem exiladas.
todavia o poeta é o homem para quem é dado viver intensamente
os pensamentos do coração, porém sem ingenuidade. nasci da
minha própria luta pela beleza, me alimentei do amor que desesperadamente
cultivei, encontrei quem me procurava, abandonei quem me escravizava. se amei
totalitariamente, sofri mais com os
sonhos que com o corpo, chorei mais pelo irrealizável que pelo perdido,
desejei sempre mais ao amor que a amante.
ah! se antes eu soubesse o que agora me revelas talvez
houvesse como acreditar. mas nada aprendi, tudo o que sei é continuamente
duvidar, e duvido do real pela sua essência ilusória, e duvido da ilusão porque
esta sempre quer se realizar, só não
duvido do amor, pois este tem a mim e não eu a ele.
conto apenas que seja sincrônico o prevalecer do puro
sentimento com o entender químico, ambos ensinando ao imperfeito
pensamento. somente assim a orgia dos sentidos tem sentido, somente
assim há plenitude na poesia, o poeta pleno nasce do homem indeciso,
do menino livre, do lobo faminto, das musas que se multiplicam em uma única
idealização de mulher, aquela que nasce de si e ao parir o mundo já não se
pertence, como o amor não pertence a quem ama.
eu não sou quem eu já fui, eu não sou o que sou, eu sou o
que sinto, penso eu, e já não me reconheço.
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