terça-feira, 11 de junho de 2013

PARA QUEM TEM NAMORADA - E PARA QUEM NÃO TEM

hoje eu amo o outro
,este outro ser divergente que há em mim
eu o amo em desespero de ser também por ele amado...
- porque preciso que alguém me ame como eu amo
,que meu amor seja enfim retribuído em
                sua totalidade
                          sua complexidade
                                        sua intensidade...

eu amo em línguas que jamais ouvi
se na minha o termo para todos 
... os amores 
,é único 
no grego tem três palavras
(o que antes era sofismo, depois de ágape virou modismo)
bom mesmo é em irlandês
são dezoito palavras para dezoito tipos de amor
 - com tantas pronúncias haverá tantas possibilidades 
de se ouvir AMOR
,que uma há de me atingir...


 ah, já posso ouvir o oblíquo torto:
eu te amo
- quem me ama?
- que importância pode ter?
saber que sou amado
,que amo
,que o mundo é uma bola azul
e o pote de ouro no fim do arco-íris me espera antes mesmo de meu fim que,
             pode ser hoje
                            pode ser agora
                                           pode já ter acontecido...

eu queria ser amado
- e sou
 eu queria amar para ser amado
- e amo
 e o amor tanto já veio e tanto já se foi
,que hoje eu amo o outro

este outro ser divergente que há em mim...

domingo, 9 de junho de 2013

EXCALIBUR

havia um pedaço de pau fincado na lama
ninguém era capaz de removê-lo, pois ficava
fora do alcance do caminho florido

um dia um menino agredido pela ordem das coisas
ferido pelas cores, pelos aromas e sabores
maltratado pelos pássaros e pelos anjos
entro na poça e retirou o velho cajado

saiu ao sol e viu as gentes distantes irem ainda mais longe
percebeu que o pedaço de pau
transformou-se numa espada
o barro que secou sobre sua pele formou
a mais dura armadura
nascia o cavaleiro do lodo
o anti-herói predestinado a combater o mundo
claro e ordeiro

derrubou reis
venceu duques e clérigos
violentou princesas
indignado sentiu-se amado.

era um homem de posses
possuía um pedaço de pau e um pouco de lama
tinha vestes e ouro e posição
exposição
mulher amante e profissão
cidadão
correto altivo e orgulhoso
cansado sentiu-se odiado.

o velho se refugiou numa torre
além das nuvens
ali guardava suas lembranças
a falta de fantasia e esperanças
as aventuras as amarguras a indolência
não tinha mais sonhos nem dissabores
perdera os amigos e os inimigos
extasiado soube-se ignorado.


morreu entediado e feliz

sexta-feira, 7 de junho de 2013

ALCOVA DO TEMPO

Adormeço no estrado do tempo,
na noite negra que espanta a compreensão;
persigo o passado, incalculável espaço que arrasto,
como grilhões inquebrantáveis, por todos os atos,
antes mesmo de formular um pensamento.

Adormeço no estrado do tempo,
guerreiro cibernético em armadura medieval,
combato a dor, porque muita dor possuo,
combato o medo, porque muito medo possuo,
mato o amor, porque o amor possui muita dor e medo,
mas, fundamentalmente, o amor possui muita alegria e
esperança, sendo assim, também me possui, me violenta,
impulsiona-me.

Adormeço no estrado do tempo,
quem sobreviverá, aquele que fui ou quem almejo ser?
existe de fato escolha, se meus passos são guiados pelo desespero do momento?

Acordo na alcova do tempo,
faquir moribundo que de tanto beijar na boca fétida da
morte, de tanto gozar na vulva gélida da morte,
enjoou até de morrer.

Acordo na alcova do tempo,
cansado de sonhar sonhos azuis, quando a realidade
é um golpe abaixo das costelas que me atira janela afora,
muito longe de mim.

terça-feira, 4 de junho de 2013

VERSOS PELA PAZ

III

um passo tímido
encolhido
abafado
como o choro e o riso
pavor!

nas veias o sangue queima
nas ruas o sangue escorre
no escuro ninguém corre
terror!

medo do homem de turbante
medo do homem do botão vermelho
medo do moleque no sinal
histeria!

nas mesquitas se canta a vingança
nas sinagogas se grita a fobia
nas sacristias se abafa o grito
das crianças!

mundo abiótico
a pomba branca foi abatida
sequer o amor nos redime,

em tempos de medo
todos somos vitimas
todos somos cúmplices
súplices,
em guerra com a

PAZ!

domingo, 2 de junho de 2013

VERSOS PELA PAZ


II

 

seu corpo alvo me pedia festa

eu ria, sorvia, me lambuzava

untava você em seu próprio mel

fome...

 

era meu, o seu desejo

 o seu riso e o seu gozo

minina-mulher-amante

 generosa

em seus xeros

 seus toques

 suas umidades

 

assim se deu,

cedeu e conquistou

vitoriosa, não exibiu o troféu

guardou-o, teso, dentro de si

plena de mim, ali fiquei

ainda estou, sempre estarei,

em sua carne branca...

 

ali sempre estaremos, juntos

nas noites alvas,

insones, impregnadas

de saudade e vontade e entrega...

 

poucas noites são assim

as nossas noites são assim,

noites em que o mundo dorme melhor

em paz e feliz,

porque nós o velamos

o protegemos da dor, em nossa inefável

noite de amor.

 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

VERSOS PELA PAZ


I

 

joão nasceu do amor

em seu corpo nasceu a cor

escura

pura

dos tempos antes do tempo

da cura antes do mal

do homem erigido sobre o animal.

 

marina nasceu do espanto

em seu corpo apareceu o branco

luminar

anelar

do quântico e dos cânticos

do riso e dos motivos

semente a germinar gente.

 

tainá acordou vermelha

kazu surgiu amarelo

foi assim num sonho azul:

todo mundo rodou o mundo

ciranda-cirandinha

deixe o ódio e vem brincar

na aquarela da vida

na arte dos vitrais,

preto branco amarelo vermelho

plúrimos e únicos

nossas diferenças são iguais.

terça-feira, 28 de maio de 2013

TU NÃO TENS A MINHA ÂNCORA


já fui barquinho de papel
nas calmas águas de uma bacia de alumínio,
já fui canoa furada
naquela lagoa em que Narciso e Ismália
se enamoraram, ouvindo a serenata de sapos
à lua (também já fui sapo),
noutros tempos fui um cruzador
matei e morri vinte vezes,
quem sabe sobrevivi aos naufrágios da alma
apenas para sucumbir às tormentas do coração!
 
Poseidon não me quis, o sal me curou
depois dos sete mares singrei mais um
sangrei, veleiro sem vento
fui corsário, gaulês, aportei em Mucuripe
jamais fui mercante
jamais desisti de ser errante
fui, apenas fui
ouvindo dos portugueses
antigos marinheiros, as vozes mortas:
“navegar é preciso, viver não é preciso”
 
de repente, o remanso
atravessei a pororoca, o dilúvio
somente um iguapé me comporta
sou bote, bóia, iole jusante
mantenho altivo o pulsante
pulo ondas e marolinhas
extasiado, excitado, extenuado
já não sei onde chegar
- nunca soube, nunca soube
tu não tens a minha âncora
como parar em tuas águas tão tensas?
não paro, mergulho
vou em teu fundo, respiro
é por navegar que te vivo.




 

domingo, 26 de maio de 2013

SEU DOCE OLHAR


Seu olhar doce sempre me cativou
Quanto mais seu peito encolhia
Seu ar se negava
Seu corpo se comprimia
Mais doce e plácido ficava seu olhar 

Um dia perdi um amor
E o olhar da amada sobre mim
Perdi mais...
Perdi também o seu doce e plácido e corajoso olhar 

Assim como sempre irei me lembrar desse amor
- porque todos amores são contínuos
O seu olhar doce e plácido e corajoso e terno
Sempre me acompanhará 

Agora que seus olhos foram fechados
Seu peito enfim deixou de acolher seu coração
No escuro, no frio, em minha solidão
Seu olhar doce e plácido e corajoso e terno
Eterno
Repousará novamente sobre mim.

sábado, 25 de maio de 2013

SOBRE QUANTIDADES II


tanta coisa passou que não percebemos

tanta coisa passou, soubemos e não retemos

tanta coisa passou, sentimos e não admitimos

tanta coisa passou, felizmente nós ainda estamos

(eles passarão, eu passarinho)

 

tanta coisa ficou que o tempo não apaga

tanta coisa ficou, amamos o que não ousamos

tanta coisa ficou, o sentimento e o carinho

tanta coisa ficou, meu olhar seu olhar

(as coisas que ficam são aquelas guardadas no coração)

 

pelos dias felizes que passaram

pela alegria que ficou,

sei que demora, mas agente

ainda vai se encontrar

sexta-feira, 24 de maio de 2013

QUANTIDADES



Quantas palavras perdidas

Quantos olhares iludidos

Quantos carinhos imprecisos,

Quantas lágrimas presas

Quanta dor presente

Quanto amor eterno,

Quanta chama extinta

Quanta estrela longínqua

Quanta saudade descrita,

Quanta esperança tola

de apenas um cara Solitário.

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